Além do déficit de mão de obra, setor busca novas estratégias para ampliar a formação de profissionais e garantir acesso a especialistas em áreas críticas como IA, cibersegurança e computação em nuvem
O Brasil vive um paradoxo na área de tecnologia. Ao mesmo tempo em que a transformação digital acelera os investimentos das empresas e amplia a demanda por especialistas, o país ainda forma profissionais em ritmo muito inferior ao necessário para acompanhar esse crescimento. Segundo a Brasscom, cerca de 53 mil profissionais de Tecnologia da Informação se formam anualmente, enquanto o mercado necessita de aproximadamente 159 mil novos especialistas por ano. O resultado é um déficit acumulado superior a 530 mil vagas não preenchidas entre 2021 e 2025.
Esse cenário fez com que a escassez de talentos deixasse de ser um desafio restrito aos departamentos de Recursos Humanos e passasse a integrar a estratégia de negócios das organizações. Em vez de disputar profissionais cada vez mais escassos, empresas de diferentes setores recorrem ao outsourcing de TI para acessar especialistas altamente qualificados, reduzir o tempo de contratação e garantir competências técnicas que muitas vezes seriam difíceis de encontrar no mercado.
Ao mesmo tempo, cresce a mobilização para ampliar a formação de novos profissionais. A Associação Brasileira das Empresas de Software (ABES) integra o Plano Brasil Digital 2030+ (BD30+), iniciativa que reúne governo, academia, empresas e sociedade civil para acelerar a transformação digital do país. Dentro do Pilar 4, dedicado à Educação e Capacitação Digital, a meta é ampliar significativamente a formação de profissionais para atender às necessidades do mercado brasileiro e fortalecer a competitividade nacional.
Uma das principais iniciativas da entidade é a Plataforma RH Tech, ecossistema digital gratuito criado para aproximar empresas, instituições de ensino, organizações da sociedade civil e profissionais de tecnologia. A plataforma reúne o Hub de Educação Tecnológica, com 90 cursos gratuitos oferecidos em parceria com 31 instituições; o Hub de Vagas, que conecta talentos às empresas do ecossistema ABES; o Panorama RH Tech, com indicadores sobre empregabilidade; e estudos voltados ao futuro do trabalho. Desde seu lançamento, a plataforma já ultrapassou 40 mil acessos acumulados, recebeu o Prêmio Empregabilidade Jovem do CIEE em 2023 e 2024, conquistou o Troféu IOS de Impacto Social em 2023 e atualmente concorre ao Prêmio Marco Maciel 2025, que reconhece iniciativas de governança e inovação social.
“O desafio de formar talentos não é apenas do setor de tecnologia. Hoje, praticamente toda a economia depende de profissionais de TI, assim como o próprio governo. Nossa principal iniciativa é a Plataforma RH Tech, um ecossistema digital gratuito que integra empresas, sociedade civil e terceiro setor, conectando jovens em formação, pessoas em busca de oportunidades e organizações que precisam contratar. O objetivo é aproximar a oferta e a demanda de talentos e fortalecer toda a cadeia de formação em tecnologia”, afirma Jamile Sabatini-Marques, diretora de Inovação e Fomento e diretora do Think Tank da ABES.
Segundo o Estudo Mercado Brasileiro de Software 2026, elaborado pela ABES em parceria com a IDC, o mercado brasileiro de tecnologia da informação movimentou US$ 67,8 bilhões em 2025, crescimento de 18,5% em relação ao ano anterior, desempenho bastante superior à média mundial. O estudo também mostra que o Brasil permanece como o 10º maior mercado de TI do mundo e representa aproximadamente 35% de todo o mercado latino-americano, reforçando a importância estratégica do setor para a economia nacional.
Ao mesmo tempo, o levantamento aponta uma mudança importante nas prioridades das lideranças de tecnologia. Entre os principais investimentos previstos pelas empresas estão serviços gerenciados, computação em nuvem, inteligência artificial e modelos capazes de acelerar o acesso a profissionais especializados, cenário que impulsiona o crescimento do outsourcing.
“O desafio hoje não é simplesmente contratar profissionais. É encontrar especialistas capazes de assumir projetos complexos em áreas como inteligência artificial, integração de sistemas, segurança da informação, infraestrutura em nuvem e engenharia de dados, competências que são extremamente disputadas pelo mercado”, afirma Fernanda Brunorio, Head de Outsourcing da Globalsys, empresa especializada em contratação de profissionais para tecnologia e inovação.
Segundo ela, o modelo permite que empresas tenham acesso imediato a competências técnicas sem enfrentar longos processos seletivos ou competir diretamente por profissionais escassos. “Não estamos falando de terceirizar tarefas simples. Estamos falando de colocar, dentro da operação do cliente, especialistas que dificilmente ele conseguiria contratar sozinho, porque o mercado disputa esses profissionais há anos”, explica.
Jamile ressalta, porém, que a terceirização especializada deve ser encarada como uma resposta de curto prazo, e não como solução definitiva para o déficit de profissionais. “A terceirização de talentos ajuda, mas é paliativa. Diante da dificuldade de contratar e reter profissionais, muitas empresas recorrem à alocação de especialistas para ter acesso rápido às competências de que precisam. Isso funciona como um alívio imediato, mas não resolve a raiz do problema, que continua sendo a formação insuficiente de novos talentos. Por isso investimos em iniciativas como a RH Tech, que atuam justamente na base dessa cadeia.”
A tendência acompanha um movimento internacional. Dados do Gartner indicam que o mercado global de outsourcing de TI cresce cerca de 6,7% ao ano, enquanto aproximadamente 70% das empresas planejam ampliar os investimentos em terceirização de serviços tecnológicos. Entre as companhias presentes no ranking Forbes Global 2000, mais de 90% já utilizam esse modelo como parte de sua estratégia operacional.
Na Globalsys, o outsourcing segue uma lógica diferente da terceirização tradicional de equipes. Segundo Fernanda, o foco está na identificação de especialistas com experiência comprovada em tecnologias específicas.
“A Globalsys não terceiriza vagas genéricas. Buscamos profissionais com histórico consistente em bancos de dados, desenvolvimento de software, integração de sistemas, cibersegurança, inteligência artificial e outras especialidades críticas. Esses profissionais passam a atuar na operação do cliente mantendo o mesmo nível de qualidade técnica que exigimos em nossos próprios projetos.”
Para Jamile, o desafio da formação de profissionais continuará sendo um dos principais entraves para a transformação digital do país ao longo desta década.
“Esse é um gap estrutural, não conjuntural. Entre 2019 e 2024, o setor demandou aproximadamente 665 mil profissionais e a formação alcançou cerca de 465 mil, um descompasso de 30%. Sem investimento contínuo em educação, requalificação e políticas públicas, a tendência é que essa diferença permaneça ou até aumente. Há estudos internacionais que projetam a possibilidade de o Brasil chegar ao fim da década com cerca de um milhão de vagas em aberto. Não é um problema que será resolvido no curto prazo, mas com uma década de esforço coordenado entre governo, iniciativa privada, academia e sociedade civil. Essa é justamente a lógica da RH Tech e da participação da ABES no Plano Brasil Digital 2030+.”
Fernanda concorda que o desafio exige diferentes frentes de atuação e acredita que o outsourcing terá papel cada vez mais estratégico nesse processo.
“Enquanto o país trabalha para ampliar a formação de novos profissionais, as empresas precisam continuar inovando. O outsourcing deixa de ser apenas uma solução operacional e passa a ser um instrumento estratégico para garantir competitividade, acelerar projetos de transformação digital e permitir que a inovação aconteça mesmo em um mercado com escassez de talentos”, conclui.







