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Por que o Brasil precisa urgentemente formar mais desenvolvedores? 

Artigo por Gustavo Lunardelli Trevisan, pesquisador do Think Tank da Associação Brasileira das Empresas de Software (ABES)

Em uma sala de aula, em um coworking, em uma fábrica ou em uma pequena empresa do interior, a mesma pergunta começa a aparecer com mais frequência: quem vai construir os sistemas, plataformas, aplicativos, integrações, automações e soluções de inteligência artificial de que o Brasil precisa?  

O país fala em transformação digital, indústria 4.0, governo digital, cidades inteligentes, IA generativa e soberania tecnológica. Segundo a Brasscom, entre 2019 e 2024 o mercado brasileiro demandou 665.403 profissionais de tecnologia, enquanto o sistema formou 464.569 no período imediatamente anterior, indicando um déficit de 30,2% entre oferta e demanda. A entidade também projetou que o macrossetor de TIC poderia gerar até 147 mil empregos formais em 2025, dos quais 57% ligados diretamente à área de tecnologia.  

No entanto, a carência de desenvolvedores revela o descompasso entre a velocidade da digitalização e a capacidade brasileira de formar mão de obra qualificada. O país ampliou o acesso ao ensino superior, mas ainda não converte esse avanço em profissionais preparados para áreas tecnológicas. Segundo o Inep, 33% dos concluintes do ensino médio em 2023 ingressaram na educação superior em 2024. O dado mostra que a passagem entre a educação básica e ensino superior ainda é limitada, especialmente quando se observa a desigualdade entre redes de ensino: na rede federal, 64% dos concluintes seguiram para o ensino superior; na rede estadual, 27%.   

A questão torna-se mais aguda quando se observa a permanência. A OCDE informa que, no Brasil, 25% dos ingressantes em bacharelados abandonam o curso no primeiro ano e apenas 49% concluem a graduação até três anos depois do prazo teórico previsto. Entre jovens adultos de 25 a 34 anos, 24% possuem formação terciária, contra 49% na média dos países da OCDE.   

Ainda, o Brasil forma proporcionalmente poucos graduados em áreas STEM (ciência, tecnologia, engenharia e matemática). Segundo a OCDE, 16% dos concluintes de bacharelado no Brasil vêm dessas áreas, enquanto 34% se concentram em negócios, administração e direito. Os dados evidenciam a disparidade diante de uma economia cada vez mais estruturada por softwares, dados, redes, automação e inteligência artificial.   

Formar mais desenvolvedores não significa abastecer empresas de tecnologia, mas ampliar a capacidade nacional de resolver problemas públicos e privados com soluções digitais próprias. Um país com mais desenvolvedores pode criar sistemas públicos mais eficientes, plataformas educacionais mais inclusivas, soluções de saúde digital mais seguras, ferramentas de produtividade para pequenas empresas, aplicações para o agronegócio, tecnologias industriais e mecanismos de proteção contra ataques cibernéticos. 

A urgência é também social. A área de tecnologia oferece salários superiores à média nacional e pode atuar como vetor de mobilidade, desde que o acesso à formação não fique restrito a jovens de maior renda, grandes centros urbanos ou redes escolares mais bem estruturadas. Em audiência pública no Senado, especialistas apontaram que a falta de pessoal qualificado é um entrave para a inovação e destacaram áreas como desenvolvimento de software, programação, ciência de dados, segurança cibernética, inteligência artificial, internet das coisas e design de interfaces.  

Contudo, a formação de desenvolvedores não pode depender de bootcamps privados, cursos rápidos ou iniciativas isoladas. Esses modelos ajudam, mas não substituem uma política pública de longo prazo. É preciso articular a educação básica, o ensino técnico, a graduação, a requalificação profissional e a aproximação com o setor produtivo.  

A computação precisa existir mais cedo na trajetória escolar, não como treinamento mecânico em ferramentas, mas como linguagem, raciocínio lógico, cultura digital, pensamento computacional e capacidade de criação. 

O entendimento já se faz presente em marcos institucionais recentes. A BNCC Computação, regulamentada a partir de normas do Conselho Nacional de Educação, estabelece as competências para inserir a computação na educação básica. A Estratégia Brasileira para a Transformação Digital, em seu ciclo 2022-2026, também reconhece a transformação digital como eixo de desenvolvimento nacional. A Nova Indústria Brasil inclui a transformação digital da indústria entre suas missões estratégicas para ampliar a produtividade.   

A formação de desenvolvedores também deve ser tratada como política de Estado.  

O país precisa de metas nacionais de formação em tecnologia, com indicadores públicos, financiamento estável e integração entre União, estados, municípios, institutos federais, universidades, Sistema S, empresas e organizações da sociedade civil. 

Algumas ações são prioritárias, como fortalecer a educação básica com computação, laboratórios, conectividade e professores preparados, ampliar vagas em cursos técnicos e superiores de computação, engenharia de software, ciência de dados, segurança da informação e áreas correlatas, reduzir evasão, com bolsas, tutoria, nivelamento em matemática, trilhas flexíveis e apoio à permanência estudantil e aproximar a formação e mercado, sem subordinar a educação à demanda imediata das empresas. Por fim, criar programas nacionais de requalificação para trabalhadores adultos, especialmente em regiões fora dos grandes polos tecnológicos. 

O Brasil precisa sobretudo, de criadores, mantenedores e críticos das tecnologias que organizam a vida econômica, social e política e para tanto, os desenvolvedores são os profissionais agentes da infraestrutura digital. Formá-los em maior número, com qualidade e diversidade regional, é condição si ne qua non para que o país participe como protagonista da construção de sua transformação digital. 

É tempo para o entendimento. 

Gustavo Lunardelli Trevisan é pesquisador do Think Tank da Associação Brasileira das Empresas de Software (ABES), Doutor e mestre em Ciência da Informação (UNESP/UEL) e MBA em Digital Business pela USP, professor, pesquisador e divulgador científico, com atuação nas áreas de Ciência da Informação, marketing digital e tecnologias da informação. As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, os posicionamentos da Associação. 

Referências   

BRASSCOM. Macrossetor de TIC pode gerar até 147 mil empregos formais no Brasil em 2025, aponta estudo. São Paulo: Brasscom, 2025. Disponível em: fonte digital citada. Acesso em: 25 maio 2026. Disponível em: https://brasscom.org.br/macrossetor-de-tic-pode-gerar-ate-147-mil-empregos-formais-no-brasil-em-2025-aponta-estudo/ 

BRASIL. Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação. Estratégia Brasileira para a Transformação Digital: ciclo 2022-2026. Brasília: MCTI, 2022. Disponível em: fonte digital citada. Acesso em: 25 maio 2026. Disponível em: https://www.gov.br/mcti/pt-br/acompanhe-o-mcti/transformacaodigital/estrategia-digital-atualizacao-periodo-2022-2026 

BRASIL. Ministério da Educação. Computação na Educação Básica: complemento à Base Nacional Comum Curricular. Brasília: MEC, 2022. Disponível em: fonte digital citada. Acesso em: 25 maio 2026. (Serviços e Informações do Brasil) 

BRASIL. Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços. Nova Indústria Brasil. Brasília: MDIC, 2024. Disponível em: fonte digital citada. Acesso em: 25 maio 2026. Disponível em: https://janelaunica.mdic.gov.br/portal/nova-industria-brasil/ 

INEP. Inep divulga resultado do Censo da Educação Superior 2024. Brasília: Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira, 2025. Disponível em: fonte digital citada. Acesso em: 25 maio 2026. Disponível em: https://www.gov.br/inep/pt-br/centrais-de-conteudo/noticias/censo-da-educacao-superior/inep-divulga-resultado-do-censo-superior-2024 

OECD. Education at a Glance 2025: Brazil. Paris: Organisation for Economic Co-operation and Development, 2025. Disponível em: fonte digital citada. Acesso em: 25 maio 2026. Disponível em: https://www.oecd.org/en/publications/education-at-a-glance-2025_1a3543e2-en/brazil_d42263a0-en.html 

OECD. Education GPS: Brazil: overview of the education system. Paris: Organisation for Economic Co-operation and Development, 2025. Disponível em: fonte digital citada. Acesso em: 25 maio 2026. Disponível em: https://gpseducation.oecd.org/CountryProfile?primaryCountry=BRA&topic=EO&treshold=10 

SENADO FEDERAL. Falta de profissionais ainda é entrave para a inovação, apontam debatedores. Brasília: Agência Senado, 2024. Disponível em: fonte digital citada. Acesso em: 25 maio 2026. Disponível em: https://www12.senado.leg.br/noticias/materias/2024/07/04/falta-de-profissionais-ainda-e-entrave-para-a-inovacao-apontam-debatedores 

 

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