Enquanto o Brasil acelera sua transformação digital e consolida sua posição como principal mercado de tecnologia da América Latina, cresce também um desafio estrutural que começa a impactar diretamente cidadania, educação, empregabilidade e acesso a direitos básicos: a exclusão digital.
Dados da Associação Brasileira das Empresas de Software — ABES, entidade que representa as empresas desenvolvedoras de software, serviços de tecnologia da informação e soluções digitais no Brasil, apontam que o país movimentou US$ 58,6 bilhões em investimentos em tecnologia da informação em 2025, impulsionado pelo avanço da inteligência artificial, computação em nuvem, automação, cibersegurança e digitalização de serviços públicos e privados. No entanto, parte significativa da população brasileira ainda permanece à margem desse processo.
Segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) Contínua, do IBGE, 20,5 milhões de brasileiros com 10 anos ou mais não utilizavam a internet em 2024, o equivalente a 10,9% dessa população. Entre eles, 45,6% declararam não saber usar a internet, evidenciando que o problema vai além da infraestrutura e envolve também alfabetização digital e acesso à formação tecnológica.
A migração de diversos serviços para plataformas digitais trouxe ganhos importantes de eficiência e agilidade, especialmente em áreas como atendimento público, educação, saúde, serviços financeiros e acesso à informação. Porém, também passou a criar novas barreiras sociais para quem permanece desconectado.
“A exclusão digital compromete diretamente o exercício da cidadania na sociedade contemporânea. Quando parte da população permanece desconectada ou possui acesso limitado à tecnologia, cria-se uma barreira adicional para o acesso a direitos e políticas públicas. Nesse sentido, a inclusão digital se torna um elemento fundamental para garantir participação cidadã plena”, afirma Fernando Eduardo Cardoso, pós-doutor em Administração e coordenador do curso de Gestão Pública da UNIASSELVI.
Inclusão digital vai além do acesso à internet
Nos últimos anos, especialistas, entidades do setor de tecnologia e organismos internacionais passaram a ampliar o debate sobre o conceito de “conectividade significativa”, que propõe uma visão mais ampla sobre inclusão digital. A discussão parte do princípio de que não basta apenas possuir acesso à internet: é necessário garantir conexão de qualidade, dispositivos adequados, acessibilidade financeira, segurança online, habilidades digitais e capacidade real de utilização produtiva da tecnologia.
Segundo estudo mais recente do Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI.br) e do Cetic.br sobre conectividade significativa, divulgado em 2024 com base nos dados nacionais de 2023, apenas 22% da população brasileira possuía níveis considerados satisfatórios de conectividade. O conceito considera não apenas o acesso à internet, mas fatores como qualidade da conexão, disponibilidade de dispositivos adequados, frequência de uso e competências digitais. O levantamento também evidencia que as desigualdades sociais e regionais continuam fortemente associadas à exclusão digital. Em áreas rurais, 54% da população está na pior faixa de conectividade significativa. Entre pessoas das classes DE, apenas 1% possui os níveis mais altos de conectividade, enquanto 64% permanecem nos níveis mais baixos de acesso e apropriação digital.
A exclusão digital no Brasil se manifesta de diferentes formas. A mais visível é a falta de acesso à internet, mas especialistas alertam que a dificuldade de utilizar aplicativos, plataformas e serviços digitais também acaba excluindo parte da população, mesmo entre aqueles que já possuem algum nível de conectividade.
O cenário também acende um alerta para o mercado de trabalho. Em uma economia cada vez mais orientada por tecnologia, inteligência artificial e automação, a falta de acesso digital reduz oportunidades profissionais, limita a qualificação e aprofunda desigualdades econômicas e sociais.
“Jovens e trabalhadores que possuem acesso limitado à internet ou a dispositivos tecnológicos enfrentam maiores dificuldades para desenvolver habilidades digitais, participar de cursos online ou acessar oportunidades profissionais. Esse cenário pode reduzir significativamente suas possibilidades de mobilidade social. Além disso, a desigualdade digital também afeta o acesso à informação e a serviços públicos que hoje são cada vez mais ofertados em plataformas digitais. Isso pode criar uma nova forma de exclusão, na qual determinados grupos sociais têm menor capacidade de acessar oportunidades disponíveis”, explica o professor.
Nesse contexto, a ABES defende que a inclusão digital precisa ser compreendida como uma agenda estratégica para desenvolvimento econômico, social e educacional. A entidade apoia iniciativas ligadas à expansão da conectividade e ao fortalecimento da formação tecnológica, entendendo que o acesso à internet é apenas o ponto de partida para uma participação efetiva na economia digital.
“A exclusão digital no Brasil se manifesta de várias formas. A mais visível é a falta de acesso à internet, mas há também a dificuldade de usar aplicativos e serviços digitais, que exclui mesmo quem já possui conexão. Por isso, apoiar iniciativas de internet de qualidade é fundamental, porque conectividade é o ponto de partida. Mas não basta estar conectado. É preciso ter oportunidade. A inclusão digital precisa caminhar junto com educação, capacitação e acesso ao mercado de trabalho”, afirma Jamile Sabatini Marques, diretora de Inovação e Fomento da ABES.
Segundo Jamile, a entidade também atua para aproximar formação tecnológica e empregabilidade por meio da plataforma RH Tech, iniciativa voltada à integração de jovens ao mercado de tecnologia. Além disso, a associação mantém o Programa Mobilização para Redução da Desigualdade, que realiza a doação de computadores para organizações do terceiro setor, ampliando o acesso à capacitação tecnológica em comunidades socialmente vulneráveis.
“Quando conectamos inclusão digital à formação profissional e geração de oportunidades, conseguimos criar impacto social real. A tecnologia precisa ser um instrumento de redução de desigualdades, e não um fator adicional de exclusão”, completa Jamile.
O coordenador do curso de Gestão Pública da UNIASSELVI destaca que a ampliação da infraestrutura digital precisa vir acompanhada de investimentos em educação e formação tecnológica.
“Programas de expansão da conectividade, incentivos regulatórios e parcerias público-privadas podem contribuir para levar acesso à internet a áreas menos atendidas. Mas, além da infraestrutura física, é fundamental investir também em inclusão digital e formação em competências tecnológicas. O acesso à conectividade precisa estar acompanhado de políticas educacionais que permitam à população utilizar essas ferramentas de forma produtiva e cidadã”, afirma.
Segundo ele, embora a desigualdade de renda continue sendo um dos principais fatores de desequilíbrio social no Brasil, a desigualdade digital passou a ocupar posição central dentro das novas dinâmicas econômicas e sociais do país.
“Em muitos contextos, quem possui menor renda também enfrenta maiores dificuldades de acesso à infraestrutura digital e à formação tecnológica. Por isso, a inclusão digital precisa ser compreendida como parte das políticas de redução de desigualdades sociais”, conclui.









