Pesquisas & Estudos

Do ingresso ao chope: dados da Zig revelam uma nova forma de consumir entretenimento no Brasil

Startup brasileira transforma mais de 22 milhões de transações em inteligência de mercado e revela um consumidor cada vez mais impulsivo

Durante muito tempo, pesquisas de comportamento dependiam de entrevistas, formulários ou grupos de discussão para entender os hábitos de consumo da população. Hoje, esse retrato também começa a ser construído por outra fonte: os próprios dados gerados nas plataformas digitais que intermediam experiências do dia a dia.

É o caso da Zig, startup brasileira especializada em tecnologia para o mercado de entretenimento ao vivo. A partir da análise de mais de 22 milhões de transações realizadas entre janeiro de 2024 e maio de 2026, a empresa identificou uma mudança importante na forma como o brasileiro consome lazer. Da compra de ingressos à escolha do petisco no bar, as decisões estão cada vez mais próximas do momento da experiência.

Os levantamentos mostram que o consumidor brasileiro compra ingressos poucos dias antes dos eventos, permanece mais tempo em bares quando opta por determinados petiscos e modifica significativamente seus hábitos durante grandes acontecimentos esportivos, como a Copa do Mundo.

Mais do que uma curiosidade sobre comportamento, os estudos evidenciam como plataformas digitais passaram a funcionar como grandes laboratórios de análise de consumo, transformando milhões de registros operacionais em inteligência para empresas dos setores de entretenimento, alimentação e hospitalidade.

O brasileiro decide em cima da hora
Um dos estudos da Zig analisou 13,4 milhões de tickets comercializados em todo o país entre janeiro de 2024 e maio de 2026 por meio das plataformas Zig Tickets e Whitelabel. O levantamento mostra que o comprador típico adquire seu ingresso apenas cinco dias antes do evento.

Segundo os dados, 80% das compras acontecem até 31 dias antes da realização do evento e cerca de 27% dos ingressos são adquiridos nas últimas 48 horas. O comportamento revela um consumo de entretenimento ao vivo fortemente marcado por decisões de curto prazo.

Embora existam compradores que se planejam com meses de antecedência, especialmente em grandes festivais e eventos sazonais, o padrão predominante é de compra próxima à data.

A antecedência varia conforme o tipo de evento. Festas e baladas são as atrações mais planejadas, com média de 103 dias entre a compra e a realização. Já categorias como esportes e parques apresentam comportamento oposto, com média de apenas seis e sete dias, respectivamente, além de forte presença de compras de última hora.

As diferenças regionais também chamam atenção. O Norte registra o perfil mais impulsivo do país, com média de 9,7 dias entre compra e evento. Já o Nordeste apresenta a maior antecedência, com média de 121 dias, influenciado por grandes eventos sazonais, como Carnaval e São João, tradicionalmente vendidos com muitos meses de antecedência.

Ao contrário do que se poderia imaginar, a geração não é um fator determinante para esse comportamento. Gen Z, Millennials e Gen X apresentam praticamente o mesmo padrão de antecedência, com mediana de cinco dias e janela de decisão muito semelhante.

Para David Pires, CIO da Zig, os dados mostram uma mudança importante na forma como o brasileiro consome experiências. “Existe uma percepção de que eventos são planejados com muita antecedência, mas os dados mostram outra realidade. O consumidor brasileiro decide cada vez mais próximo da data, o que reforça a importância de estratégias de comunicação e venda capazes de capturar essa demanda de última hora”, afirma.

Segundo o executivo, o comportamento é consistente em diferentes regiões, categorias e perfis de público. “Quando analisamos milhões de transações, percebemos que o entretenimento ao vivo se tornou uma decisão mais dinâmica. A compra de impulso deixou de ser exceção e passou a fazer parte da lógica de consumo do setor”, completa.

Essa capacidade de compreender tendências praticamente em tempo real é uma das vantagens do uso de plataformas digitais no setor de entretenimento. Em vez de depender apenas de pesquisas declaratórias, empresas passam a observar o comportamento efetivo do consumidor, identificando padrões de compra, horários de maior demanda, diferenças regionais e mudanças de hábitos com base em milhões de transações reais.

O levantamento também mostra que o horário de compra segue um padrão bastante definido. O pico de vendas ocorre às 16h e cerca de 57% de todos os ingressos são vendidos entre 15h e 22h. Os dias úteis concentram 76,3% do volume total de compras.

O bar também virou fonte de inteligência
O mesmo princípio foi aplicado ao universo dos bares. Utilizando dados anonimizados de 8,6 milhões de visitas registradas em estabelecimentos paulistanos durante todo o ano de 2025, a Zig conseguiu mapear quais alimentos estimulam maior permanência dos clientes, quais combinações aparecem com mais frequência nas comandas e como fatores externos alteram o comportamento do consumidor.

O estudo “A mesa do boteco paulistano” mostra que, quando um paulistano pede bolinho no bar, a conta termina com chope em 56% das vezes. É o maior índice entre todos os petiscos mapeados. O espetinho aparece logo atrás, com 50%. Batata frita e calabresa empatam em 48%.

O hambúrguer é o único item da lista abaixo de 40%: apenas 37% das visitas em que ele aparece na comanda terminam com cerveja. A explicação apontada pelo estudo é direta: o hambúrguer funciona mais como refeição do que como item para compartilhar. Quem pede petisco tende a permanecer mais tempo na mesa; quem pede lanche, consome e vai embora.

O dado geral revela um hábito consolidado: 42% de todas as visitas aos bares monitorados terminam com algum tipo de cerveja na conta. Mais de quatro em cada dez idas ao bar paulistano passam pelo chope ou pela latinha.

A batata frita ocupa uma posição singular no levantamento. As duas combinações de petiscos mais frequentes em uma mesma comanda são batata frita com queijo coalho, em primeiro lugar, e batata frita com frango, em segundo. Ela aparece em quase toda combinação, funcionando menos como um petisco específico e mais como o elemento de base da mesa paulistana.

O terceiro par mais frequente, espetinho com queijo coalho, tem uma marca geográfica clara: é a combinação típica da Zona Norte, região que também registra o maior índice de cerveja por bar da cidade.

“A comanda não mente. O petisco que mais vende junto com cerveja não é necessariamente o mais famoso, mas o que mantém as pessoas na mesa. O bolinho e o espetinho constroem a visita; o hambúrguer encerra ela”, afirma David Pires, CIO da Zig.

A análise por zona da cidade usa a mediana por bar, uma métrica considerada mais robusta do que o volume agregado porque evita que casas muito grandes distorçam o retrato do bar típico de cada região. A Zona Norte lidera com taxa de cerveja de 45,3%, seguida pela Zona Oeste, com 44,8%; Zona Sul, com 43,5%; Zona Leste, com 42,4%; e Centro, com 42,1%.

O Centro merece atenção especial. No agregado, parece o menos cervejeiro da cidade, mas o estudo aponta que a distorção vem dos grandes restaurantes de almoço, que concentram volume sem o perfil típico de boteco. O bar típico do Centro bebe no mesmo patamar dos demais.

Em volume absoluto, a Vila Madalena concentra o maior fluxo de idas a bares da cidade: 1,3 milhão de visitas registradas em 2025, mais do que qualquer outro bairro monitorado.

Copa do Mundo deve impulsionar bares e restaurantes
Os dados históricos da Copa do Mundo de 2022 também serviram como base para projetar o comportamento esperado durante o Mundial de 2026. Segundo a Zig, em dias de jogos do Brasil, 81% dos bares paulistanos registraram aumento nas vendas de cerveja.

Bebidas prontas para beber, conhecidas como RTDs, subiram em 76% dos bares. Gin cresceu em 71% dos estabelecimentos e vodka, em 68%. A comida também avançou, mas em menor proporção que as bebidas, com aumento registrado em 67% dos estabelecimentos.

Entre os itens de comida, o hambúrguer apresenta comportamento distinto. Em dias comuns, ele é o petisco com menor associação ao consumo de cerveja, com apenas 37% das visitas terminando com chope quando aparece na comanda. No dia de jogo, o padrão muda: o hambúrguer cresce em cerca de sete em cada dez bares monitorados, transformando-se no lanche de quem chegou cedo para acompanhar a partida e permaneceu no local.

Outro dado relevante para o planejamento dos estabelecimentos diz respeito ao horário. Na Copa de 2022, disputada no Catar, os jogos do Brasil foram realizados à tarde, deslocando o pico de consumo dos bares do horário noturno para as 16h. Em 2026, com o torneio nas Américas, os jogos do Brasil estão programados para o período da noite, que coincide com o horário de maior movimento natural dos bares paulistanos, entre 20h e 21h.

“A Copa de 2026 não vai mudar o horário do bar paulistano. Ela vai lotar o horário que já é o mais cheio. Para o dono de bar, isso significa que a preparação não é de rotina, é de capacidade”, afirma o CIO da Zig.

O cenário observado pela Zig também aparece nas expectativas do setor de alimentação fora do lar. Levantamento da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel) mostra que 52% dos bares e restaurantes pretendem transmitir os jogos da Copa do Mundo de 2026. Entre esses estabelecimentos, oito em cada dez esperam aumento no faturamento durante o torneio, sendo que a maior parte projeta crescimento de até 20% em relação aos dias sem partidas.

Para aproveitar esse aumento da demanda, 57% dos empresários afirmam que pretendem realizar ações específicas durante a competição. As iniciativas incluem decoração temática, criação de cardápios especiais, investimentos em equipamentos de transmissão e ampliação da oferta de bebidas, demonstrando que os estabelecimentos já incorporam análises de comportamento do consumidor em seu planejamento operacional.

Nos dias de jogo da Copa de 2022, a cerveja liderou o crescimento de vendas em mais bares do que qualquer outra categoria, seguida de perto pelos RTDs, que vêm ganhando espaço na mesa dos bares paulistanos. Gin e vodka também registraram crescimento consistente, com mais de dois terços dos estabelecimentos apontando alta nessas categorias durante as partidas da seleção.

Dados deixam de ser registro e viram estratégia
Mais do que revelar curiosidades sobre os consumidores, os levantamentos ilustram uma transformação silenciosa impulsionada pela tecnologia. Plataformas que antes eram vistas apenas como sistemas de venda de ingressos, meios de pagamento ou gestão de comandas passaram a funcionar como geradoras de inteligência de mercado.

A capacidade de analisar milhões de transações quase em tempo real permite identificar tendências que dificilmente seriam percebidas por métodos tradicionais de pesquisa. Para promotores de eventos, bares, restaurantes e casas de entretenimento, isso significa prever demanda, otimizar estoques, definir estratégias de comunicação e ajustar equipes com base em evidências concretas, e não apenas em percepções.

Em um cenário em que o consumidor decide sair de casa poucos dias antes de um show, compra ingresso nas últimas 48 horas ou escolhe permanecer mais tempo em um bar por causa da combinação entre um petisco e uma bebida, os dados deixam de ser apenas registros operacionais e passam a representar um dos principais ativos estratégicos do setor de entretenimento.

A tecnologia, nesse contexto, não aparece apenas nos bastidores da venda ou do pagamento. Ela passa a ajudar empresas a entenderem melhor o próprio comportamento social em torno do lazer. Do ingresso ao chope, os dados mostram que o entretenimento brasileiro está mais dinâmico, mais espontâneo e cada vez mais orientado por decisões tomadas no calor do momento.

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