Entrevista

Arquitetos da conectividade global: os engenheiros por trás das redes que movem o mundo são destaque no IEEE 2026

A engenharia que sustenta o mundo digital raramente aparece — mas está em tudo. Da chamada de vídeo ao sistema financeiro, da câmera do celular à inteligência artificial, há décadas de pesquisa e colaboração por trás de cada avanço.

É esse trabalho que o IEEE reconhece por meio do IEEE Awards — uma das mais importantes distinções internacionais em tecnologia.

Na segunda matéria desta série, o Guia do PC conversa com Stefan Parkvall, que, junto a Erik Dahlman, Johan Sköld, foi reconhecido com a IEEE Jagadish Chandra Bose Medal por suas contribuições fundamentais para o desenvolvimento das redes móveis modernas. Com mais de três décadas de atuação, o trio de engenheiros da Ericsson está entre os principais arquitetos das tecnologias que sustentam a conectividade global. Seus trabalhos foram decisivos para a evolução e padronização das redes móveis, do 2G ao 5G — e já avançando para o 6G — incluindo marcos como WCDMA, LTE e 5G NR.

Stefan Parkvall, Erik Dahlman e Johan Sköld

Ao longo dessa trajetória, Stefan Parkvall destacou-se como um dos principais arquitetos de tecnologias como HSPA, LTE e NR, acumulando milhares de patentes na área. Seu colega Erik Dahlman, por sua vez, teve papel central na criação de padrões globais e na consolidação do 3GPP como organismo unificado de padronização. E Johan Sköld liderou processos estratégicos em organismos como 3GPP e ITU, contribuindo diretamente para a definição dos padrões que viabilizam a conectividade móvel em escala global.

O impacto desse trabalho conjunto vai muito além da engenharia. É essa infraestrutura que sustenta serviços financeiros digitais, aplicações de Internet das Coisas (IoT), streaming e soluções industriais conectadas — pilares da economia digital contemporânea.

Mais do que avanços técnicos, o reconhecimento do IEEE Awards reforça o papel da colaboração internacional na construção de tecnologias que operam em escala global, conectando bilhões de pessoas e dispositivos.

Confira a seguir a entrevista com Stefan Parkvall para entender como suas contribuições estão moldando o presente — e redesenhando o futuro:

1. Em que momento você percebeu que seu trabalho teria um impacto global na conectividade?
É uma pergunta difícil! Sem dúvida, a comunicação celular teve um impacto profundo no nosso dia a dia e é difícil imaginar um mundo sem ela. No entanto, como pesquisadores, fomos motivados principalmente pelos desafios técnicos e pela resolução de problemas interessantes. Em algum momento, percebemos o impacto que nosso trabalho – e o trabalho de toda a indústria, que é realmente um esforço coletivo – teve na sociedade. Uma boa tecnologia é importante, mas o momento certo é igualmente importante. A comunicação de voz em larga escala surgiu no início dos anos 90. Outro passo muito importante foi a banda larga móvel. Especificamente, o HSPA, uma evolução dos primeiros sistemas 3G (focados em voz), foi um passo importante que levou a internet para o bolso das pessoas em meados dos anos 2000. Além de ser tecnicamente interessante, coincidiu com os primeiros smartphones que realmente podiam aproveitar a conectividade. Isso levou a uma explosão no volume de dados e em novos casos de uso, criando uma plataforma para a inovação.

2. Como vocês equilibraram inovação, consenso e padronização internacional ao longo da evolução do 2G para o 5G?
O consenso global sobre uma única tecnologia subjacente, baseado na padronização do 3GPP, é fundamental. Isso é o que possibilitou o fantástico desenvolvimento em termos de dispositivos e aplicações – o que usamos hoje é drasticamente diferente da situação de apenas 20 anos atrás! O principal desafio potencial, dada a necessidade desse consenso, é garantir que o resultado final esteja realmente na vanguarda da tecnologia. Mas, na maioria dos casos, isso não se mostrou um problema. A maioria das empresas envolvidas no 3GPP está ciente da necessidade de estar na vanguarda. A colaboração e a padronização internacionais também ajudam a refinar ideias técnicas. Diferentes empresas e organizações apresentam suas respectivas propostas ao 3GPP e a solução resultante, após a conclusão do processo de padronização, é quase sempre significativamente melhorada em comparação com as diferentes propostas originais. A padronização, portanto, é mais do que apenas concordar com uma solução única; é também um processo de refinamento vital para o desenvolvimento da melhor tecnologia possível.

3. Na sua opinião, qual foi o principal fator diferenciador deste trabalho colaborativo que foi premiado com uma medalha pelo IEEE?
Provavelmente, trata-se de uma combinação de múltiplos fatores. Impulsionar continuamente a inovação e estar na vanguarda dela é um deles. Liderar discussões no 3GPP, ter um bom entendimento não apenas dos detalhes técnicos, mas também do sistema como um todo e de como os diferentes recursos interagem são outros motivos. Estruturar as discussões também é importante. Nem todos têm a capacidade de se concentrar nos aspectos importantes do problema em questão e não se perderem em detalhes. Explicar sua linha de raciocínio de forma simples também é crucial, assim como poder se beneficiar do conhecimento adquirido durante o desenvolvimento de gerações anteriores de comunicação sem fio. Por último, mas não menos importante, ouvir as opiniões de outras pessoas nas discussões também é fundamental, tanto para aprender e incorporar bons aspectos técnicos, quanto para criar um senso de inclusão e fazer com que o grupo adote coletivamente as soluções.

Também temos sido visíveis e produtivos fora do âmbito do 3GPP, escrevendo alguns dos livros clássicos da área, participando de conferências, proferindo palestras, envolvendo-nos em projetos de pesquisa conjunta com a academia e lecionando em universidades.

4. O 6G representa uma evolução natural ou uma ruptura tecnológica?
Ambos! O 6G será uma evolução no sentido de que não se deve reinventar a roda. O 5G contém muitas soluções técnicas excelentes e estas devem, obviamente, ser reutilizadas como uma transição para a era 6G.

Ao mesmo tempo, o 6G exigirá e incluirá avanços tecnológicos substanciais em muitas áreas, tanto devido a avanços tecnológicos gerais (soluções não viáveis ou talvez nem mesmo previstas quando o 5G foi desenvolvido) quanto a casos de uso novos e muito mais exigentes.

Um exemplo fundamental disso são os enormes avanços na área de IA e aprendizado de máquina que ocorreram nos últimos 10 anos e que terão um grande impacto nas futuras soluções de acesso sem fio de diversas maneiras.

Por um lado, entidades e agentes de IA surgirão como novos “usuários”, impondo novas demandas aos serviços que precisam ser fornecidos pelas redes sem fio. Por outro lado, espera-se que a funcionalidade de IA dentro das próprias redes sem fio proporcione grandes benefícios em termos de melhoria do desempenho da rede e redução dos custos operacionais. O resultado é uma estrutura inteligente onde IA e conectividade sem fio se integram e desempenham papéis igualmente importantes.

Note-se que isso não significa que a IA irá “dominar” ou substituir a necessidade de engenheiros e pesquisadores no futuro. A IA deve ser vista como uma ferramenta para tornar a engenharia e a pesquisa mais eficientes, dando aos cérebros humanos mais tempo para se dedicarem àquilo que os torna únicos: o pensamento inovador e criativo.

5. Quais são os maiores desafios atuais para o futuro das redes móveis?
Um grande desafio é que o futuro é incerto e as mudanças acontecem em um ritmo cada vez mais acelerado, mas ainda assim precisamos projetar o 6G para lidar com essas aplicações futuras. Isso exige não apenas um excelente desempenho da rede móvel, mas também flexibilidade para se adaptar a diferentes e novos casos de uso. Alguns desses casos de uso começarão a decolar já na era do 5G, como a Realidade Estendida (XR), mas à medida que o uso aumenta com o tempo, a capacidade e os recursos do 6G precisam suportá-los em larga escala. A Inteligência Artificial (IA) também está evoluindo rapidamente, impondo novos requisitos às redes de comunicação, e o 6G será projetado para ser nativo de IA desde o início. Definitivamente, temos anos empolgantes pela frente!

Você também vai gostar

Leia também!