Depois de defender a necessidade de governança para agentes de IA nas empresas, Kleber Bacili, CEO da Sensedia, fala sobre outro desafio da transformação digital: preparar pessoas, lideranças e culturas organizacionais para uma era em que humanos e inteligências artificiais trabalharão lado a lado
Nos últimos meses, a Sensedia chamou a atenção do mercado ao anunciar sua evolução de uma plataforma de gestão de APIs adicionando um AI Gateway, capaz de governar agentes de Inteligência Artificial em escala. A movimentação foi apresentada durante o APIX e reflete uma percepção cada vez mais presente entre empresas de tecnologia: o desafio da IA não está apenas na tecnologia, mas na forma como as pessoas se adaptam a ela.
Em entrevista recente ao Guia do PC, Kleber Bacili, CEO da Sensedia, explicou como a companhia está construindo mecanismos de governança para evitar o chamado “caos silencioso” provocado por agentes autônomos sem controle.
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Mas existe uma segunda transformação acontecendo dentro da empresa: a cultural. Se os agentes estão mudando a forma como as organizações operam, eles também estão mudando a forma como as pessoas aprendem, trabalham, se desenvolvem e constroem suas carreiras.
Em mais uma conversa exclusiva, Kleber Bacili fala sobre ansiedade diante da velocidade das mudanças, desenvolvimento de lideranças, retenção de talentos e por que a adoção de IA não deve ser confundida com redução de equipes.
Guia do PC – A IA está transformando profundamente o mercado de tecnologia. Como essa evolução tem impactado a gestão de pessoas na Sensedia?
Kleber Bacili – Ainda estamos no começo dessa transformação. Há muita coisa que será diferente daqui a alguns anos, mas decidimos acelerar nossa jornada criando um programa interno chamado Sensedia Shift, cuja lógica é simples: para ajudar nossos clientes a atravessarem essa transformação, precisamos vivê-la também. Não faz sentido oferecer soluções baseadas em IA sem experimentar internamente os desafios, aprendizados e oportunidades que elas trazem. Então, o programa busca acelerar a fluência dos colaboradores em IA e promover uma evolução gradual da forma como trabalhamos. Hoje já vemos desde o uso de IA como assistente individual até equipes coordenando múltiplos agentes especializados em desenvolvimento, documentação, arquitetura e análise de mercado.
GPC – O que mudou na forma de engajar colaboradores desde a chegada da IA?
KB – A principal mudança foi a velocidade. A Sensedia sempre teve uma cultura muito ligada à inovação e ao pioneirismo tecnológico, mas agora estamos vivendo algo diferente.
Tecnologias que antes levavam anos para amadurecer evoluem em poucos meses. Ferramentas que hoje parecem revolucionárias podem ser substituídas rapidamente por alternativas ainda melhores. Isso cria entusiasmo, mas também gera ansiedade. As pessoas precisam aprender continuamente, reaprender e se adaptar em um ritmo que muitos profissionais nunca experimentaram ao longo da carreira.

GPC – Existe preocupação dos colaboradores sobre o impacto da IA nos empregos?
KB – Sim, naturalmente existe. Basta acompanhar as notícias para encontrar discussões sobre automação, produtividade e redução de equipes. Mas, um dos princípios do nosso programa é muito claro: adoção de IA não é uma redução de equipe disfarçada. Existe uma premissa equivocada de que a quantidade de trabalho é fixa. Em tecnologia isso não é verdade. Temos backlog, novas demandas, novos produtos e novas oportunidades surgindo constantemente. Então, quando ganhamos produtividade com IA, conseguimos acelerar entregas, responder mais rapidamente ao mercado e ampliar nossa capacidade de execução. O foco não é fazer mais com menos pessoas. É fazer muito mais com as pessoas que temos.
GPC – Como a Sensedia está adaptando sua cultura organizacional para acompanhar esse ritmo de mudança?
KB – Recentemente revisamos nossa cultura para incorporar elementos relacionados à IA. Um dos princípios que adotamos é que toda atividade deve começar com uma pergunta simples: “Como a IA pode me ajudar a executar isso melhor?”
Tudo começa pela fluência. As pessoas só conseguem reinventar processos quando conhecem as ferramentas disponíveis. Por isso, criamos métricas de adoção, canais internos de compartilhamento de experiências e encontros quinzenais chamados Show & Tell, nos quais colaboradores apresentam casos reais, aprendizados e resultados obtidos com IA. Essa troca acelera o aprendizado coletivo e reduz a sensação de que cada pessoa precisa descobrir tudo sozinha.
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GPC – Como equilibrar inovação, produtividade e bem-estar em um contexto de transformação constante?
KB – É importante mostrar que não existe uma única forma correta de evoluir.
Temos pessoas que trabalham com automações extremamente avançadas e outras que estão dando os primeiros passos utilizando ferramentas como NotebookLM ou assistentes de produtividade.
Quando alguém vê apenas exemplos muito avançados, pode sentir que está ficando para trás. Nosso papel é criar um ambiente onde todos possam evoluir no próprio ritmo, compartilhando aprendizados e construindo confiança ao longo do processo.
GPC – Quais são os principais diferenciais da Sensedia para atrair e reter talentos?
KB – Escutar as pessoas e agir com base no que ouvimos.
Participamos anualmente do Great Place to Work, mas também realizamos pesquisas trimestrais para entender o que está funcionando e o que precisa melhorar.
O mais importante não é coletar feedback. É transformar feedback em ação.
Aprendemos que muitas questões são específicas de determinados times. Por isso, adotamos abordagens mais personalizadas, trabalhando junto às lideranças para resolver problemas e fortalecer pontos positivos de cada equipe.
Também realizamos análises de turnover, avaliações de desempenho e planos de desenvolvimento individual para acompanhar a evolução das pessoas ao longo da carreira.
GPC – Qual é o papel das lideranças nesse processo?
KB – Fundamental.
Na Sensedia, acreditamos que o líder precisa vivenciar a transformação antes de tentar conduzi-la.
No programa Shift existe um princípio muito claro: o líder precisa colocar a mão na massa. Se ele não experimentar a tecnologia, dificilmente conseguirá inspirar sua equipe a fazer o mesmo.
Nossas pesquisas mostram uma correlação muito forte entre o engajamento dos líderes e o engajamento dos times. Quando um líder está motivado, preparado e conectado à transformação, isso se reflete diretamente na experiência das pessoas.
GPC – Como funciona o desenvolvimento de carreira dentro da Sensedia?
KB – Temos um modelo chamado My Journey, que apresenta caminhos possíveis de evolução para diferentes funções.
Uma pessoa pode crescer tecnicamente, seguir para arquitetura, liderança, pré-vendas ou outras áreas.
Também temos um programa interno de mobilidade chamado Best Fit, que permite aos colaboradores se candidatarem a vagas abertas dentro da própria empresa.
Muitas vezes, a melhor forma de reter um talento não é mantê-lo exatamente onde ele está, mas ajudá-lo a encontrar novos desafios dentro da organização.
GPC – Quais habilidades serão mais importantes para os profissionais de tecnologia nos próximos anos?
KB – Continuaremos precisando de especialistas, mas a capacidade de colaborar será cada vez mais importante. Vivemos em um mundo onde pessoas e agentes de IA trabalharão juntos. Nesse contexto, saber integrar conhecimentos diferentes, combinar especialização com visão ampla e construir soluções coletivamente será um diferencial enorme. As melhores respostas dificilmente virão de um único indivíduo. Elas surgirão da combinação de múltiplas perspectivas.
GPC – Que conselho você daria para quem deseja continuar relevante em um mercado cada vez mais influenciado pela IA?
KB – Mantenha a curiosidade, e lembre-se que aprender é importante, mas desaprender também é. As tecnologias vão continuar evoluindo muito rápido. Quem permanecer aberto ao aprendizado terá mais facilidade para acompanhar essa transformação. O conhecimento é algo progressivo, ninguém precisa dominar tudo de uma vez, e o mais importante é experimentar, vivenciar as ferramentas e construir repertório gradualmente.
GPC – Para encerrar: qual foi a principal lição da Sensedia nessa jornada de adoção de IA?
KB – Talvez a maior lição tenha sido perceber que tecnologia sozinha não transforma organizações. No início, acreditamos que bastava disponibilizar ferramentas para que os ganhos aparecessem naturalmente, mas rapidamente percebemos que o elemento humano é muito mais importante. As empresas precisam criar espaço para que as pessoas aprendam, experimentem e compartilhem experiências. Quando isso acontece, a transformação deixa de ser apenas tecnológica e passa a ser cultural.









