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Tecnologia, prevenção e desigualdade: por que inovar em saúde exige ir além do laboratório

Artigo por Suélia Fleury Rosa, membro sênior do IEEE (Instituto de Engenheiros Eletricistas e Eletrônicos), maior organização científica global dedicada ao avanço da tecnologia em benefício da humanidade

Ao longo da minha trajetória como pesquisadora em saúde e engenharia, aprendi que inovação não começa em algoritmos, sensores ou modelos matemáticos. Ela começa nas pessoas. Começa na forma como elas vivem, trabalham, adoecem e, muitas vezes, desistem de se cuidar porque o sistema simplesmente não cabe na sua realidade.

Tecnologias como inteligência artificial, telemedicina e monitoramento remoto são avanços importantes e necessários. Mas, quando falamos de comunidades em situação de vulnerabilidade, a experiência prática mostra algo muito claro: a tecnologia, sozinha, não resolve. Ela só gera impacto real quando é pensada a partir da vida concreta das pessoas — e não apenas de dados, protótipos ou artigos científicos.

Inovar em saúde de forma responsável exige ir além do laboratório. Exige entrar nos territórios, observar o cotidiano, ouvir histórias e compreender como fatores sociais, econômicos, culturais e territoriais moldam o acesso à prevenção, ao diagnóstico e ao tratamento. Quando essas dimensões são ignoradas, mesmo as soluções mais sofisticadas correm o risco de ampliar desigualdades que já existem há décadas.

Nas populações mais vulneráveis, o acesso à saúde não é dificultado apenas pela falta de médicos, hospitais ou equipamentos. Ele é atravessado por obstáculos estruturais profundos: longos deslocamentos até o atendimento, ausência de especialistas, moradias sem condições adequadas de higiene, dificuldade de manter acompanhamento contínuo e rotinas de vida incompatíveis com protocolos rígidos de cuidado. Nesses contextos, o modelo tradicional de atenção à saúde — centrado no hospital e na resposta tardia à doença — falha repetidamente.

Doenças crônicas como diabetes, problemas cardiovasculares e condições evitáveis, como determinados tipos de cegueira, evidenciam essa falha. Em muitos casos, o sistema só entra em cena quando o problema já se agravou — quando uma amputação, um acidente vascular cerebral (AVC) ou uma perda irreversível de visão já se tornaram realidade. A prevenção, nesses casos, não pode ser episódica. Ela precisa ser contínua, próxima e conectada à realidade do paciente.

É justamente nesse ponto que a tecnologia pode se tornar uma aliada estratégica. Soluções como a telemedicina, o monitoramento remoto e o uso inteligente de dados permitem levar o cuidado para mais perto das pessoas, reduzir deslocamentos desnecessários e agir antes que o quadro se agrave. No Brasil, esse potencial é ampliado pela existência do Sistema Único de Saúde (SUS), que reúne uma das maiores bases públicas de dados em saúde do mundo e oferece condições únicas para o desenvolvimento de políticas de prevenção baseadas em evidências.

Esse potencial, no entanto, só se concretiza quando as soluções são desenhadas para caber na vida real. Pensar em prevenção, nesse contexto, significa criar tecnologias que reduzam a desistência do tratamento, respeitem limitações de tempo, renda e mobilidade e diminuam a sobrecarga emocional do paciente. Ferramentas que exigem múltiplas idas ao hospital, conexão estável de internet ou alto nível de letramento digital tendem a falhar justamente onde seriam mais necessárias.

Outro desafio relevante está na distância entre pesquisa científica e aplicação prática. Muitos projetos tecnicamente promissores não avançam além da fase experimental porque são pensados para atender métricas acadêmicas, e não necessidades reais da população. Publicar artigos não garante que uma solução chegue à ponta do sistema de saúde, nem que gere impacto concreto na vida das pessoas que participaram da pesquisa.

Quando a ciência se limita à produção de dados e estatísticas, sem devolver algo concreto às comunidades envolvidas, ela perde seu sentido social. Inovar em saúde exige responsabilidade, continuidade e compromisso. Exige a construção de redes locais capazes de sustentar essas soluções ao longo do tempo e de garantir que o conhecimento produzido gere retorno social efetivo.

A inteligência artificial e os modelos preditivos têm, sim, grande potencial para antecipar riscos, apoiar decisões clínicas e otimizar recursos. Mas seu uso precisa ser criterioso. Sistemas automatizados refletem os vieses de quem os projeta e dos dados que os alimentam. Sem diversidade de olhares, sensibilidade social e compreensão territorial, a tecnologia pode reforçar desigualdades raciais, econômicas e regionais em vez de reduzi-las.

Por isso, a inovação em saúde precisa ser necessariamente multidisciplinar. Engenheiros, profissionais de saúde, cientistas sociais, gestores públicos e representantes das próprias comunidades devem participar do processo desde o início. Só assim é possível desenvolver soluções tecnicamente robustas, eticamente responsáveis e socialmente justas.

A tecnologia, por si só, não transforma a saúde. O que transforma é a forma como ela é aplicada. Inovar em prevenção significa olhar além do laboratório, reconhecer as limitações do modelo atual e assumir que saúde é, antes de tudo, um fenômeno profundamente humano. Quando bem implementada, a tecnologia fortalece a atenção primária, reduz internações evitáveis e amplia o acesso ao cuidado. Mas, para cumprir esse papel, ela precisa nascer do compromisso com as pessoas — especialmente aquelas que historicamente ficaram à margem do sistema. Só assim a inovação deixa de ser promessa e passa a ser impacto real.

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