A engenharia que sustenta o mundo digital raramente aparece — mas está em tudo. Da chamada de vídeo ao sistema financeiro, da câmera do celular à inteligência artificial, há décadas de pesquisa e colaboração por trás de cada avanço.
É esse trabalho que o IEEE, maior organização técnico-científica do mundo dedicada ao avanço da tecnologia em benefício da humanidade, reconhece por meio do IEEE Awards — uma das mais importantes distinções internacionais em tecnologia.
Nesta série, conversamos com alguns dos homenageados de 2026 para entender como suas contribuições estão moldando o presente — e redesenhando o futuro.

A primeira entrevistada é a peruana Mariana Costa Checa, cofundadora e presidente da Laboratoria, que será agraciada com o President’s Award por sua liderança notável e contribuições significativas ao público e à profissão. Fundada em 2014, a Laboratoria tornou-se uma referência regional na formação e inserção de mulheres no mercado de tecnologia, com atuação em países como México, Brasil, Colômbia e Chile.
A organização presidida por Mariana já capacitou mais de 10 mil mulheres em 11 países, alcançando uma taxa de empregabilidade de 73% e um aumento médio de renda de três vezes. “Esses reconhecimentos são sempre uma grande honra e refletem anos de trabalho de toda a equipe da Laboratoria. Já são mais de doze anos impulsionando oportunidades para mulheres no mercado de trabalho, e marcos como esse nos lembram que estamos no caminho certo”, afirma Mariana.
Para Mariana, a iniciativa segue evoluindo para responder às transformações do mercado impulsionadas pela inteligência artificial. “Hoje buscamos ser essa ponte entre mulheres com grande potencial e oportunidades que muitas vezes não estão conectadas. Há muito talento ainda não aproveitado, e nosso papel é aproximá-lo das empresas que precisam”, afirma.
Confira a seguir a entrevista:
1. O que significa para você receber o reconhecimento do IEEE por uma iniciativa que conecta tecnologia e inclusão social?
Significa muito, especialmente porque reflete a jornada que temos percorrido no Laboratoria.
Há mais de uma década, trabalhamos para ajudar mulheres de baixa renda a acessar melhores empregos na economia digital. Vimos mais de 10.000 mulheres participarem de nossos programas e mais de 70% delas conseguirem empregos de qualidade, muitas triplicando sua renda.
Portanto, esse reconhecimento do IEEE é como uma validação de algo que aprendemos ao longo do caminho: a tecnologia pode se tornar um poderoso motor de mobilidade social. Mas, acima de tudo, é um reconhecimento para nossas alunas. O potencial delas sempre esteve lá. O que fizemos no Laboratoria foi construir uma ponte entre esse potencial e oportunidades reais no mercado de trabalho.
2. Em que momento o Laboratoria deixou de ser um projeto educacional e passou a atuar como um agente estrutural de transformação na região?
Essa mudança ocorreu quando compreendemos plenamente a natureza do problema.
O desafio nunca foi apenas o acesso à educação, mas sim o acesso a uma participação econômica significativa. As mulheres na América Latina enfrentam uma teia de barreiras: redes limitadas, responsabilidades com os cuidados familiares, falta de confiança e mercados de trabalho que não recompensam seu potencial.
Após mais de uma década como um dos principais bootcamps de programação, percebemos que o mercado de trabalho estava mudando e, por isso, evoluímos. Hoje, oferecemos um modelo holístico de empregabilidade que integra orientação de carreira, habilidades digitais e em IA, além da construção de redes de contatos. Medimos o sucesso não apenas pela colocação profissional, mas também pela mobilidade econômica a longo prazo, autonomia pessoal e capital social.
3. Como a ascensão da inteligência artificial está impactando a formação e a empregabilidade dessas mulheres?
A IA está mudando tudo, e está acontecendo rapidamente, acelerando tanto os riscos quanto as oportunidades.
Por um lado, as mulheres, especialmente aquelas em contextos vulneráveis, estão sendo expostas à automação em taxas significativamente maiores, o que pode ampliar as desigualdades existentes. Por outro lado, a IA está redefinindo o que importa no mercado de trabalho: adaptabilidade, fluência digital e habilidades humanas estão se tornando mais cruciais do que nunca.
Na Laboratoria, isso nos levou a evoluir estrategicamente. Não estamos mais focados apenas em treinamento técnico, mas sim em capacitar mulheres para navegar em um mundo em rápida transformação: aprendizado contínuo, resolução de problemas, comunicação e a capacidade de usar a IA como ferramenta. Já estamos vendo resultados expressivos dessa mudança e acreditamos que esse modelo é fundamental para garantir que o futuro do trabalho seja mais inclusivo, e não menos.
4. O IEEE é uma organização cuja missão é usar a tecnologia para o benefício da humanidade. Como você acredita que a tecnologia se cruza com o impacto social e o que isso significa para os tecnólogos hoje?
A tecnologia molda o acesso: acesso à informação, a empregos, a oportunidades. Isso torna seu impacto inerentemente social.
Mas a tecnologia não é neutra. Ela reflete as perspectivas daqueles que a criam. Se essas perspectivas não forem diversas, os resultados também não serão. É por isso que a inclusão não é apenas uma prioridade social, mas um imperativo técnico.
Para os profissionais de tecnologia de hoje, isso significa expandir seu senso de responsabilidade. Não se trata apenas de construir o que é possível, mas de questionar para quem é, quem está sendo deixado de fora e como projetar sistemas que criem resultados mais equitativos. Se queremos que a tecnologia realmente beneficie a humanidade, precisamos de talentos mais diversos moldando-a — e isso requer ação intencional.
Quais são as maiores oportunidades para impulsionar a inclusão na tecnologia?
Acredito que a maior oportunidade esteja em preencher uma lacuna muito real. De um lado, temos milhões de mulheres talentosas subempregadas ou fora do mercado de trabalho, não por falta de capacidade, mas por falta de acesso, redes de contatos ou o tipo certo de apoio. Do outro lado, temos um mercado de trabalho que está mudando rapidamente. As empresas procuram pessoas que possam se adaptar, aprender e trabalhar com tecnologia, mas nem sempre encontram esses talentos.
O que falta é a conexão entre esse talento e oportunidades reais. Na Laboratoria, é nisso que nos concentramos. Não apenas em preparar mulheres, mas em ajudá-las a navegar no mercado de trabalho, construir redes de contatos e acessar oportunidades concretas.






