O volume de dados gerado por empresas, consumidores e dispositivos cresce em ritmo exponencial, mas a capacidade das organizações de extrair valor real dessas informações segue muito atrás. O cenário cria um paradoxo cada vez mais evidente: nunca se produziu tanto dado, e nunca foi tão difícil transformá-lo em inteligência aplicável ao negócio.
Estimativas da Cybersecurity Ventures indicam que, até o fim de 2025, o mundo ultrapassará a marca de 200 zettabytes de dados armazenados em nuvens, dispositivos pessoais, sistemas corporativos e ambientes de Internet das Coisas (IoT). Para efeito de comparação, esse volume equivale à capacidade de 200 bilhões de computadores com 1 terabyte de armazenamento — como se cada habitante do planeta tivesse cerca de 25 desktops completamente preenchidos por informações.
Nos últimos anos, empresas de diferentes setores aceleraram investimentos em sistemas, plataformas analíticas e arquiteturas digitais com a promessa de se tornarem orientadas por dados. No entanto, na prática, muitos desses projetos avançaram mais rápido do que a maturidade dos processos internos, criando um descompasso entre o que é registrado pelos sistemas e o que efetivamente sustenta decisões estratégicas.
Para Marcos Silva, diretor de Tecnologia da Falconi, o problema não está na falta de tecnologia, mas na ausência de processos bem estruturados que deem sentido aos dados gerados. “A tecnologia avançou, mas a gestão dos processos não acompanhou na mesma velocidade. E quando o processo não está claro, o dado que ele gera dificilmente terá valor estratégico”, afirma o executivo.
O impacto desse desalinhamento é percebido no dia a dia das organizações. Líderes demandam indicadores, análises e previsões que os sistemas não conseguem entregar com consistência, porque os dados disponíveis não foram concebidos para responder às necessidades atuais do negócio. Em muitos casos, há abundância de registros, mas falta contexto, padronização e conexão com objetivos estratégicos claros.
“O excesso de dados cria uma ilusão de controle. Parece que temos tudo ali, disponível. Mas quando tentamos conectar esses dados à estratégia, percebemos que eles não foram gerados para esse fim. Eles refletem fluxos operacionais antigos, não objetivos de negócio atuais”, complementa Marcos.
Nesse ambiente, mais informação não significa mais clareza. Pelo contrário: a sobrecarga de dados desconectados tende a dificultar a consolidação de visões confiáveis, atrasar decisões e aumentar a dependência de análises manuais e retrabalhos.
Superar esse paradoxo exige uma mudança de abordagem. Antes de ampliar investimentos em tecnologia, as empresas precisam revisitar processos, definir critérios claros de governança e estabelecer quais informações são, de fato, relevantes para a gestão e a competitividade. A partir desse alinhamento, os dados passam a ser gerados com propósito, permitindo integração, consistência e uso estratégico.
Na chamada “era dos 200 zettabytes”, o desafio central não é armazenar mais, mas orientar melhor. O foco deixa de ser volume e passa a ser significado. Quando bem direcionada, a tecnologia deixa de atuar apenas como repositório operacional e assume seu papel como habilitadora de decisões mais rápidas, precisas e alinhadas aos objetivos do negócio.
“A pergunta que toda empresa deveria fazer não é ‘que sistema eu preciso?’, mas sim ‘de que informação eu preciso para competir melhor?’. A tecnologia vem depois e vem para fazer esse propósito acontecer”, conclui Marcos Silva.








